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Perdas Gestacionais
e Neonatais

Perdas Gestacionais e Neonatais: Um Luto Invisibilizado

A experiência de enfrentar uma perda gestacional ou neonatal é uma jornada única, extremamente dolorosa e muitas vezes solitária.

 

O vínculo entre uma mulher e seu futuro bebê começa a construir-se assim que esta toma conhecimento da gravidez, e é fortalecido através de sensações, mudanças psíquicas e físicas, planos e expectativas.

Na perda gestacional ou neonatal existe a ruptura abrupta do vínculo com o filho real e com o filho idealizado, a interrupção de sonhos e fantasias e a frustração das expectativas depositadas na criança por vir, trazendo um forte impacto para aqueles que estão envolvidos emocionalmente na vivência da concepção de um bebê. Sofrer este tipo de perda dá origem ao luto, um processo natural e esperado perante a quebra de vínculos.

Perdas gestacionais tardias, que ocorrem após a vigésima semana de gestação, ou de bebês que morrem ao nascer (natimortos), podem gerar uma série ainda mais intensa de impactos emocionais, físicos e sociais para os pais. Essas perdas são particularmente devastadoras, pois muitas vezes envolvem uma conexão emocional mais profunda com o bebê em desenvolvimento. Além disso, esse tipo de perda envolve tomada de decisões difíceis e desafiadoras sobre como proceder após a perda, como planejar funerais, lidar com pertences do bebê, etc.

As emoções que cercam essas perdas são complexas e variadas. Frequentemente, a perda  engendra um processo de luto extremamente doloroso, marcado por tristeza, desespero e, às vezes, choque. Tudo se torna de repente confuso, turvo, desorganizado. Há também a raiva pela perda, sensação de injustiça, sentimento de culpa  injustificada e uma sensação profunda de vazio. Estas, entre tantas outras emoções, são esperadas e  válidas nesse contexto.

 

Mas, ao contrário de outras formas de luto, o luto por essas perdas vem acompanhado de um desafio específico: a falta de espaço e autorização de parte da sociedade para expressar a dor. Uma espécie de  “ luto invisibilizado”, o que o torna um dos lutos mais complexos e com menos validação social. 

 

Mães e pais que enfrentam essas perdas podem se sentir isolados em sua dor, lutando contra um silêncio cultural que minimiza a profundidade de seu sofrimento. A falta de um bebê tangível para lembrar e chorar pode fazer com que os próprios pais questionem a validade de seu luto, e esse questionamento é frequentemente amplificado quando a sociedade não reconhece plenamente a extensão da perda.

São muitas as mulheres que relatam experiências onde se sentem incompreendidas e até inadequadas na sua própria dor, por vezes com relação ao próprio parceiro. Nem sempre de forma consciente, os profissionais de saúde e/ou pessoas à sua volta acabam por dizer ou agir de maneira a tentar suprimir o sofrimento e afastar o tema da morte das suas vidas. Essa atitude, ao invés de auxiliar,  pode representar um fator de risco pela complicação do luto dessas mulheres.

A importância de elaborar essas perdas não pode ser subestimada. Negar ou reprimir as emoções associadas à perda pode levar a complicações emocionais e psicológicas a longo prazo, como uma grave  depressão e/ou outros distúrbios psíquicos que poderão impactar diretamente  na vida da mulher e seu entorno relacional

 

Dividir experiências com outras pessoas que passaram pela mesma situação pode ajudar a mulher a encontrar um espaço para sentir e expressar a sua dor, reorganizar sentimentos e construir novos significados para a perda. As histórias compartilhadas por aquelas que vivenciaram essas perdas podem, além de ajudar outras mulheres que passaram por essa dor,  constituir poderosas ferramentas de educação e empoderamento. Ao quebrar o silêncio, as vozes se unem para criar uma rede de reconhecimento e apoio tão necessários para o acolhimento dessas mulheres.

 

A compreensão e o apoio adequado são essenciais para ajudar a mulher e outros envolvidos com a gestação a enfrentar essas perdas dolorosas e realizar o luto referente a elas. Profissionais de saúde, terapeutas e grupos de apoio desempenham também estes papéis cruciais ao fornecer suporte emocional e recursos para ajudar no processo de luto e na recuperação física e mental, sendo a terapia especializada  uma ferramenta valiosa para ajudar a mulher a processar suas emoções e encontrar maneiras saudáveis de lidar com sua perda.

A artista mexicana Magdalena Carmen Frida Kahlo Calderón (1907-1954), conhecida popularmente como Frida Kahlo, é considerada  ícone do surrealismo e do universo feminino na década de 1950. Ela nasceu em 1907, em Coyoacan e teve uma trajetória desafiadora que infligiu a ela boa dose de sofrimento físico e psíquico.

 

Frida queria muito ser mãe, mas embora tenha engravidado mais de uma vez, ela nunca teve filhos, pois o acidente de bonde que a perfurou em sua juventude comprometeu seu útero e deixou graves sequelas, que a impossibilitaram de levar uma gestação até o final.

 

Ela teve  três perdas gestacionais (em 1929 ela sofreu o primeiro aborto espontâneo, e em 1932, o segundo). Esses eventos traumáticos parecem ter impactado fortemente sua arte, na qual ela retratou de forma impressionante a dor decorrente dessas perdas.

Num dos registros encontrados em seu diário, ela escreveu: "A pintura tem preenchido a minha vida. Perdi três crianças e uma série de coisas que poderiam ter preenchido esta vida miserável. A pintura substituiu tudo. Eu acho que não há nada melhor do que o meu trabalho".

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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 O Impacto de Perdas Gestacionais   na Obra de Frida Kahlo                

Frida Kahlo - Hospital Henry Ford ou A cama voando, 1932

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Frida Kahlo - Maneiras

"Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu"
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Maíra  Golovaty. Lederman  

  psicóloga  clínica 

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